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Próxima Paragem

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Ser Bombeira Voluntária na Alemanha #3

Primavera, melhor altura para se fazer limpezas e arrumações no Quartel.

Todos foram chamados e a maioria compareceu. Bem, aquilo sim foi uma geral. Começou na cave e acabou no ultimo piso. Tudo ficou muito bem arrumado e as escadas foram muito bem lavadas.

No final do dia, fizemos o verdadeiro "Grill" com salsichas grelhadas na brasa... maravilha. Falávamos pouco mas gostávamos daquele convívio e só tínhamos pena que, ás vezes não sabíamos o que dizer e também nem sempre compreendíamos sobre os temas que os colegas falavam para a gente também se meter no meio das conversas.

Às vezes riam-se e a gente ria-se também. Olhava para ele e ele para mim e piscava-mos os olhos, do género, não percebi nada, mas tudo bem, vamo-nos rir também. Para nós até tinha a sua graça.

Contudo, alguns ainda puxaram conversa e lembro-me de ter comentado que o mais difícil para nós era saber todos os nomes dos materiais. Tudo o que era material dos Bombeiros e muitas outras coisas que dávamos nas instruções teóricas era um pouco difícil de compreender e mesmo de pronunciar. Eles admitiam sempre que o Alemão é complicado. Ainda bem que alguns tinham essa noção.

Num outro dia, um colega esteve a dizer os nomes de todo o material do carro de fogo. Bem, levamos uma injecção de nomes enormes, comecei então a escrever num papel.

Nós tínhamos de aprender à força toda, custa-se o que nos custa-se. Notei que todos ficavam a olhar, uns murmuravam e outros davam um ar de riso. Eu, como sempre, com um sorriso no rosto e muito entusiasmada pois achava na altura que ia conseguir. 

Compra-mos um livro, um livro de bolso, grosso e com 957 páginas, um bocadinho caro para dizer a verdade, mas era interessante e tinha bastantes nomes dos quais a gente deveria saber na ponta da língua, mas não bastava saber.

Tinha de os decorar e chegar ao quartel e saber pronuncia-los. Os colegas, supostamente deveriam ajudar de certa forma. Digo eu. Talvez estivesse errada.

Não podia ter este livro na minha cabeça em uma semana, aliás, em uma semana já me tinha esquecido do que tinha aprendido na anterior. Uma vez por semana não era absolutamente nada.

Tentei. Não li o livro todo. Acho que nem metade. Desisti. Desanimei. Estava a fazer uma coisa num local onde não era bem-vinda e se algum dia fosse seria daqui a muitos anos. Até lá, teria de fazer a Escola de Bombeiros, numa turma com mais de vinte Alemães.

Esqueçam. Desanima-mos. Ainda íamos passar pela "vergonha" de não fazer teste nenhum. A teoria era sempre o pior.

Por falar em teoria. A teoria deles aqui era, ligar um retroprojector e lerem, lerem muito.

Ler, ler e ler. Já quase no fim aparecia uma imagem. Cada um lia um pouco do que passava. Cada vez que chegava a nossa vez, nós não lia-mos. Era impossível. Cada palavra com mais de 10 ou 15 letras e muitas vezes perdia-mos o fio à miada, já nem sabíamos onde íamos e sobre o que era a leitura. Já para não falar na nossa pronuncia, no qual eles muitas vezes se riam e nós também. Levei muitas coisas na brincadeira, mas as vezes abusavam da sorte. 

Enfim...

E quando se ouvia, algures de lá do fundo:

- Mas o que ainda estão aqui a fazer?

- Sei lá, pergunta-lhes.

Chateava ver e ouvir certas atitudes.

Nesse dia, vínhamos embora a pé para casa e nenhum dos dois falou quase até meio do caminho. 

De repente, eu abracei-o e comecei a chorar. Ele também.

Chorei de tristeza porque poucos viam o nosso esforço, o apoio era quase que nenhum e pensar que quase com certeza não íamos conseguir ir até ao fim, deixou-me triste. Não era por eu até não gostar daquilo, mas não sabendo falar, não vamos a lado nenhum. Nenhum mesmo. Era preciso sorte, mas nós não a tivemos.

 

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