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Próxima Paragem

Próxima Paragem

Ser Bombeira Voluntária na Alemanha #1

Eu fui, digamos que uma aprendiz, não propriamente de Bombeira Voluntária, até porque já o fui em Portugal, mas sim Bombeira Voluntária num País que não é o meu, em que muitas coisas são diferentes e também num País em que por muito que estude a língua Alemã, esta custa imenso entrar e a permanecer no meu cérebro.

É verdade. 

Ás vezes pergunto-me se o defeito é meu ou é da língua. Sinceramente acho que é dos dois.

Mas, caneco!!! Também não custava nada ser um bocadinho mais fácil, não é? Complicam tanto para nada.

Por um ano e meio da minha vida (entre 2013 e inicio de 2015, mais ou menos) fui eu e o meu companheiro, todas as Quintas-feiras, das 18h ás 20 horas, ás instruções/treinos. 

Vou ser sincera com vocês. Eles não foram todos simpáticos desde o primeiro dia. Não foram.

Tudo começou quando eu estava a navegar na Internet e me lembrei de ver coisas sobre Bombeiros Voluntários aqui perto da minha casa e eis que encontrei e decidi então escrever um email à corporação, que fica mais próxima da minha casa, cerca de vinte minutos a pé. Contei a nossa história como Bombeiros que fomos em Portugal e pedi se havia a possibilidade de um dia a gente passar por lá para conhecer o quartel.

Entretanto eles responderam e marcaram um dia. Quando chegamos lá, a uma Quinta-feira (estavam quase todos os bombeiros), cumprimentamos todos com um aperto de mão e já estão a imaginar... pareciam radares a ver o que a gente dizia. É muito chato quando a gente não se sabe exprimir, não sabe palavras para este género de encontro. Falar de Bombeiros em Alemão não é, nem nunca foi na verdade algo que eu ou ele soubéssemos ou aprendêssemos a falar. Pensamos que até seria mais fácil, mas muitas perguntas ficaram sem resposta. Enfim. 

O Adjunto de Comando apresentou as instalações. É um quartel antigo com três pisos mais a garagem, onde ficam os dois carros de incêndio, uma ambulância para transporte de pessoas, uma sala com ferramentas, um escritório e também os armários/cacifos para os Bombeiros com as respectivas fardas de cada um. 

As escadas na parte interior são em madeira (como muitas casas na Alemanha). No primeiro piso existe uma casa de banho e um grande espaço para todos tomarem duche. Digo todos, porque aqui é tudo misto. Aqui não existem diferenças. São todos tratados por igual e se tiverem de tomar banho todos juntos, eles tomam. Mas, admito que nunca vi ninguém a tomar banho lá. Tem também uma sala com um mini-bar onde se faz as reuniões e instruções. Logo em frente tem uma sala com os armários/cacifos para os jovens cadetes com idades entre os oito e os dezassete anos.

Ainda no primeiro piso, tem um mini-ginásio (que ninguém vai) e uma sala com produtos de limpeza. Sim, porque ás Quintas-feiras não havia só instrução, muitas vezes tinha-mos todos de fazer limpeza ao quartel. Achei isso muito bem. Afinal é voluntariado o que ali fazemos, o que à partida, faz com que o pouco dinheiro que possam ganhar dê para coisas mais importantes do que uma emprega de limpeza. Ainda mais, depois de ter mais de trinta pessoas com bom corpo.

No segundo piso havia a sala do Comandante que é bem pequena e cheia de papeis por todo lado, que cheirava a "raposinho", nunca mais me esqueço. Notou-se bem que é raro ele lá meter os pés e abrir as janelas. Talvez porque ele utiliza mais o escritório que tem na garagem. Aqui neste piso tem também uma divisão onde se encontra algumas fardas usadas.

Por fim, no terceiro piso existe uma sala, com mesas e cadeiras para as instruções de Quarta-feira para os meninos, os cadetes. Nesta sala tem muitos desenhos feito por eles e muitas fotografias de passatempos e demonstrações que fizeram juntamente com outras corporações.

Com mais de trinta bombeiros, só dois ou três é que faziam aquele esforço para falar com os "estrangeiros". Fora o Comandante, esse sim, até hoje foi cinco estrelas. Escrevo até hoje porque ele ontem veio a nossa casa e deixou na caixa do correio, um convite para que a gente entre novamente para a corporação para fazer a escola de Bombeiros. Bonita atitude, vocês não acham? Já passaram quase dois anos e ele lembrou-se de nós.

Achei muito simpático da parte dele. A sério que sim. Sempre foi um Senhor cinco estrelas com nós.

Lembro-me dos primeiros tempos. Era tudo completamente novo. Não tinha-mos ideia sequer de como funcionavam eles como voluntários. Digo desde já, eles são muito, mas muito diferentes de nós. Em todos os aspectos.

Mas para já, quero falar sobre eles. Os nossos colegas, os nossos camaradas "Kamaraden und Kamaradin" como eles dizem.

São os verdadeiros Alemães que defendem a sua cidade, a sua pátria, o seu dever. Muitos deles já são Bombeiros há muitos anos e verem um "estrangeiro" a tirar o seu lugar (pensão eles), é sem duvida o inicio de uma batalha sem fim. Eles é que mandam, é que sabem e são os melhores. Ponto final.

Bem, depende do ponto de vista, estes que eu conheci, não o são com toda a minha certeza.

Admito, que sempre achei que íamos conseguir levar este voluntariado até ao fim.

Sempre fui e sou muito positiva com tudo, raramente me engano e persisto até não poder mais. Esta felizmente ou infelizmente, não sei ainda muito bem, foi uma experiência única, não apenas por ser sobre os Bombeiros Voluntários na Alemanha, mas também uma mini-luta contra preconceitos e a sensação mais constrangedora de eu querer me exprimir e não saber. Não porque não tenha estudado Alemão, mas sim, por não ter estudado ou aprendido palavras para tais ocasiões.

Eu achei sempre que eles nos iam ajudar com isso. Pensei que eles iam ser compreensivos e que nos iam ensinar por exemplo os nomes dos instrumentos em geral. Para mim é muito fácil dizer em Português "espumífero", "absolvos", "redutores de 45 ou 25", "aricas", "agulhetas", "expansor", "marreta" enfim... tem muito que se lhe diga. O que me adiantava aprender uma ou outra palavra se só a ia utilizar na semana seguinte? E muitas vezes nem utilizava porque a instrução era diferente todas as semanas, o que fazia com que a gente se esquecesse rápidamente. 

Foi uma convivência com pessoas diferentes, com atitudes, formas de ver e de estar na vida que embora parecida com as nossas, são e serão sempre distintas de uma certa forma. 

Quero partilhar alguns dos nossos bons e maus momentos, neste que foi, durante um ano e meio a nossa segunda casa.