Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Próxima Paragem

Próxima Paragem

Ser Bombeira Voluntária na Alemanha #7

Um dia, ainda no Verão, em que supostamente era de instrução, lá fomos nós alegres e contentes para mais uma aventura naquele Quartel. Eu lembro-me de ter dito para irmos para o lago, afinal o telemóvel apontava 35gruas mas não, não fomos para o lago. Fomos para o Quartel e para o nosso espanto a instrução seria passada onde?? A onde?? No lago meu caros.

- Uau... vamos fazer alguma coisa em especial? Sei lá, mergulho ou assim?!!

Vamos ou melhor fomos, mas só nadar e jogar á bola.

Engraçado, eu só conheço instruções em que se não há treinos teóricos ou práticos, no mínimo iremos fazer desporto. Tipo correr na praia por exemplo, que faz tão bem ás perninhas. 

Aqui não. Aqui fomos para o lago. Antes o Comandante passou na nossa casa para a gente levar as vestimentas de banho, mas para meu espanto, nenhum dos homens levou vestimentas apropriadas, só mesmo as meninas e o meu companheiro.

Fiquei chocada!!! O meu Comandante sem nada? Todos sem nada? Completamente nus???? Como????

Tive de fazer de conta. Não olhava para mais nada a não ser para a cara deles, só e apenas quando falavam para mim. Juro que fiquei incomodada. Se não os conhecesse era uma coisa, agora, um Corpo de Bombeiros assim??? Desculpem, nunca vi e dispenso.

Sabem o que eles não fazem aqui que em Portugal fazemos e com muito gosto? 

Marcha. Marchar. Aprender e saber a marchar. Estar em condições numa formatura.

E perguntam-me vocês

- E aí?

Aqui até nos gozaram quando disse-mos que fazíamos marcha e os respectivos movimentos com os machados (ordem unida é o nome)... que fazíamos continência cada vez que passasse um graduado, alguém com um posto "importante". Respeito é esse o sentido, mas eles riam-se e diziam que isso era antigamente, agora não. Eu só pensava com os meu botões, que existem coisas que na Alemanha mudaram tanto e outras não mudaram absolutamente nada, infelizmente.

O tempo passou. Cada vez mais tinha vontade de sair de lá. 

Um dia foi o aniversário do Quartel. Foi giro. Fizeram uma pequena festa, com algumas actividades, para a comunidade local e até para crianças. O meu mano, que na altura tinha sete anos também foi e participou.

DSCN0352.JPG

Havia também uma tômbola para quem quisesse jogar e ganhar aqueles prémios que não interessam a ninguém. Era mais uma forma de chamar atenção.

Eu, por breves momentos, estive a "cuidar" dos meninos, dos cadetes.

Havia um género de uma casa feita em madeira, com desenhos nas janelas em forma de chamas a sair das mesmas. Os miúdos podiam utilizar a mangueira para, no imaginário deles apagarem o fogo.

Foram momentos engraçados, é uma verdade. Os miúdos adoraram aquilo.

Os cadetes, não eram apenas crianças pequenas. Há também jovens entre os treze e os dezasseis anos que sabem muito bem o que estão ali a fazer e sabem também que eu não falo perfeitamente bem.

Só a minha pronuncia, consegue mudar o sentido de uma ou mais palavras.

Estão a imaginar o que é eu pedir para eles pararem de atirar água para a terra (pois enlameava tudo) e eles continuavam? Uns diziam que não percebiam o que eu diziam, outros riam-se a olhar para mim com ar de gozo e continuavam e outros nem sequer ouviam.

Eu a dizer que ia fazer queixa à responsável deles (que tinha ido almoçar) e eles não me ligavam nenhuma. Não estava ali a fazer nada. Foi uma hora um pouco aborrecida. 

Lembro-me que alguns homens bombeiros puxaram um carro de fogo com uma corda e o meu companheiro fez parte desse esforço. Muito me ri. Sei que ele gostou muito de lá estar e ter relembrado tantos momentos passados.

O dia foi de festa, mas como todos os dias, este também terminou.

O que até hoje escrevi foi sem duvida o que mais me marcou.

O que me lembro, pois muitas coisas fui esquecendo com o tempo e foi melhor assim.

Sei também que, o que me fez desistir definitivamente foi um colega, numa instrução que estávamos a ter.

Nesse dia eu tinha tudo menos vontade de ir, mas lá fui. Sabia que faltava muito pouco para desistir, azar ou sorte, foi este o meu ultimo dia.

Todos se fardarão. Íamos todos fazer um treino puxado. Como se o Quartel fosse um apartamento e tudo estivesse arder. Devidamente fardados, com o aparelho respiratória isolante de circuito aberto (arica) ás costas e mangueira na mão, lá subimos as escadas.

Creeedo!!! Estava a morrer de calor, mas sei que isso era normal. Admito que fiquei muita cansada, para não dizer exausta. 

Fizemos tudo certo e no final desse treino o Comandante reuniu todos e começou a falar de outra tarefa que íamos fazer em seguida.

Eu fiquei com um rapaz, no qual até simpatizava, mas existia ali uma ligeira empatia, pois cada vez que passei por ele (e muitos outros) na rua, nunca mas nunca me cumprimentava. Estou a falar de uma pessoa que passa ao meu lado, não de uma que está do outro lado da estrada meus caros leitores. É desagradável e não existe essa necessidade de ser antipático comigo. Tudo bem. Nada a fazer.

Todos começaram a fazer coisas, depois do Comandante ter falado qual seria o exercício e eu, para variar não percebi patavina. Nada. Absolutamente na-da de na-da. 

Sabia que tinha de ir buscar um material, mas qual não sei. Bem podiam dizer o nome cem vezes, com tanto material ali eu não saia do lugar. De repente, o meu tal colega diz para eu ir buscar uma coisa dentro do carro de fogo. 

Eu fui, peguei em três coisas e perguntei:

- É alguma destas?

-Não, é (...).

Eu só m perguntava "Hã? Mas que raio é isso?", tornei a fazer o mesmo.

Peguei em algumas coisas e perguntei se era alguma daquelas.

Ele, entra pelo carro dentro e com ar de mau, mas mesmo mau e mesmo a bruto, diz ferozmente:

- Tens de aprender. Tens de estudar. Já andas aqui à muito tempo.

Só faltava acrescentar "És burra? Aprende. Não percebes nada do que te digo sua burra". Esquecendo assim o esforço que eu fazia para estar ali, a tentar levar as coisas com calma e aprendendo todas as semanas coisas diferentes.

Caldo entornado. Bastou. Para mim chega. Desisto. As lágrimas escorreram-me pela cara enquanto ainda fiquei no carro com todos atarefados do lado de fora. Limpei-as e sai de lá de dentro. Tentei ajudar, movimentar-me fosse para que lado fosse, para disfarçar. 

Estava completamente a suar com o calor. Queria largar tudo e sair daquele lugar. Não ver mais ninguém, nem ouvir aquelas vozes. Apetecia-me chorar, chorar e chorar. Foi triste, magoou-me eu não estava a espera de uma reacção como aquela. Algum dia, ele e muitos como ele vão perceber o que é ser voluntário? Ajudar o próximo? Ser acessível e perceber o verdadeiro significado de camarada?

A mim não me parece. Eu até podia falar perfeito, pois acho que muitos daqueles são tudo menos o que acabei de descrever. São sim egoístas, teimosos, gostam de disputar com postos/graduações e tem a mania da superioridade.

No fim, todos se reuniram para o Comandante falar. As lágrimas não escorreram no momento, mas tinha os olhos cheios de água. Tinha de sair de lá. Não queria que percebessem, muito embora acho que o Comandante se apercebeu, mas também não disse nada e ainda bem. Não havia nada para dizer. Só queria desaparecer e até hoje, nunca mais meti os pés naquele quartel.

Definitivamente têm de aprender muito até serem um bocadinho daquilo que somos, fazemos e aprendemos. Vocês podem achar isto combatividade, mas não é, de todo que não, é sim a realidade daquilo que vi e penso.

Terminou assim a minha pequena/grande passagem por um, dos tantos Bombeiros Voluntários daqui da bela cidade de Leipzig, que em breve vos falarei sobre ela. Esta que é uma cidade linda, desde os jardins até ao lago.

 Espero que tenham gostado. 

Até à próxima.

Próxima Paragem.